Crise climática, desigualdade e racismo ambiental: Os impactos não atingem a todos da mesma forma

Enchentes, ondas de calor, secas e deslizamentos afetam milhões de pessoas todos os anos, mas não de maneira uniforme. Dados científicos e institucionais mostram que a crise climática aprofunda desigualdades sociais e territoriais preexistentes, afetando de forma desproporcional populações vulneráveis.

Uma reflexão necessária sobre injustiça climática e racismo ambiental através do olhar de Paulo Bruno na série 'Joãozim'. (imagem gentilmente cedida pelo autor)


Esse cenário tem sido analisado a partir de conceitos como racismo ambiental e injustiça climática, que ajudam a compreender por que determinados grupos sociais estão mais expostos aos riscos ambientais — e por que isso tende a se intensificar conforme o planeta aquece.


Racismo ambiental: origem do conceito e sua atualidade

O conceito de racismo ambiental foi criado por Benjamin Franklin Chavis Jr. na década de 1980, nos Estados Unidos, em meio a protestos de comunidades negras contra a instalação desproporcional de aterros sanitários e depósitos de resíduos tóxicos em seus territórios.

Um caso emblemático ocorreu em 1982, no condado de Warren, na Carolina do Norte, quando uma comunidade majoritariamente negra se mobilizou contra o descarte de solos contaminados por PCB. O episódio é considerado um marco histórico do movimento por justiça ambiental e é citado por instituições como a Fiocruz e o Governo Federal. (Governo Federal)

Desde então, o termo passou a ser utilizado internacionalmente para descrever situações em que populações racializadas ou socialmente vulneráveis são mais expostas a riscos ambientais, seja pela ausência de infraestrutura adequada, seja por decisões históricas de planejamento territorial.

No Brasil, segundo a Fiocruz, o racismo ambiental se manifesta de forma estrutural, afetando principalmente:

  • populações negras e periféricas;
  • povos indígenas e comunidades tradicionais;
  • moradores de áreas sem saneamento básico ou infraestrutura urbana adequada.

Essas populações vivem, com maior frequência, em áreas sujeitas a enchentes, deslizamentos, ilhas de calor e contaminação ambiental.


Desigualdade ambiental medida em dados

Os impactos ambientais não são distribuídos aleatoriamente. Dados apresentados pela Fiocruz indicam que a ausência de saneamento básico, drenagem urbana e planejamento territorial amplia significativamente os efeitos de eventos climáticos extremos em áreas vulneráveis.

Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), milhões de brasileiros ainda não têm acesso à coleta e tratamento de esgoto, o que transforma chuvas intensas em eventos de alto risco social. Nessas condições, o que poderia ser um evento extremo torna-se uma tragédia recorrente. (Fiocruz)


Injustiça climática: quem menos emite sofre mais

Estudos divulgados pelo Ipea mostram que a responsabilidade histórica pelas emissões de gases de efeito estufa é profundamente desigual.

Países desenvolvidos concentram a maior parte das emissões acumuladas desde a Revolução Industrial e, ao mesmo tempo, possuem maior capacidade econômica e institucional para lidar com os impactos climáticos.

Já países em desenvolvimento, que contribuíram menos para o aquecimento global, enfrentam maior exposição a eventos extremos, menor capacidade de adaptação e impactos sociais e econômicos mais severos — configurando a chamada injustiça climática.


Crianças: o grupo mais vulnerável ao futuro climático

Reportagem da Revista Pesquisa FAPESP destaca que as mudanças climáticas afetam crianças de forma particularmente intensa.

Eventos extremos comprometem a frequência escolar, a segurança alimentar e a saúde física e mental, produzindo efeitos de longo prazo que reforçam ciclos de desigualdade social.

Assim, a crise climática não apenas reflete desigualdades atuais, mas projeta essas desigualdades para as próximas gerações.


1,5 °C ou 2 °C: por que meio grau importa tanto

O limite de 1,5 °C de aquecimento global, estabelecido no Acordo de Paris, não é simbólico. Segundo o WRI Brasil, com base em relatórios do IPCC, pequenas variações na temperatura média global resultam em impactos drasticamente distintos.

  • Ondas de calor extremas:
    A 1,5 °C, cerca de 14% da população mundial estaria exposta a ondas de calor severas ao menos uma vez a cada cinco anos. A 2 °C, esse percentual sobe para aproximadamente 37%.
  • Chuvas intensas e enchentes:
    A frequência e a intensidade de eventos extremos aumentam significativamente acima de 2 °C, elevando riscos em áreas urbanas mal planejadas.
  • Secas e insegurança hídrica:
    Regiões vulneráveis enfrentam maior escassez de água e impactos diretos sobre a produção de alimentos.

Esses impactos não ocorrem de forma homogênea. Populações que já vivem em áreas de risco são as primeiras e mais intensamente afetadas.


Planejamento ambiental como instrumento de justiça climática

O planejamento territorial e os instrumentos de gestão ambiental são fundamentais para reduzir vulnerabilidades. Estudos ambientais e processos de licenciamento permitem identificar áreas de risco, orientar o uso do solo e prevenir impactos antes que eventos extremos ocorram.

Quando bem aplicados, esses instrumentos contribuem não apenas para a proteção ambiental, mas também para a redução de desigualdades sociais.


Conclusão: a crise climática é também uma crise social

Os dados mostram que a crise climática não é apenas um problema ambiental. Ela é profundamente social. Racismo ambiental e injustiça climática evidenciam que os impactos do aquecimento global têm endereço, classe social e contexto histórico.

Limitar o aquecimento global, planejar territórios e considerar os aspectos sociais das decisões ambientais não são escolhas ideológicas, mas condições técnicas essenciais para construir um futuro mais justo e resiliente.


Referências

Comentários

Postagens mais visitadas